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domingo, 9 de março de 2008

Diário de Montagem de Bailei na Curva 1983 (8)



Fevereiro, 24.

  1. Morre Tennessee.
  2. Nada.

A morte e a memória da memória.

Morreu o dramaturgo americano Tennessee Williams no Hotel Elysée em Nova Iorque. O dramaturgo americano sempre esteve entre meus favoritos. Anos antes, fiz uma improvisação na aula da Maria Helena Lopes. O Ivo Bender, uma das minhas inspirações como escritor, e era – surpreendentemente – meu colega. Ela organizou uma cena. Ivo interpretava um diretor de teatro que encenava “Um Bonde Chamado Desejo”. Eu representava um ator da peça e a Gracinha era a atriz que, na trama, era casada comigo e tivera um caso com o diretor. Enfim um triangulo amoroso que se entrecruzava com o trio Stanley Kowalsky, Blanche de Bois e Mitch, personagens de Tennessee Williams.

Dias depois, ainda na mesma semana, encontrei o Ivo Bender no meio de uma manifestação estudantil. Ele me puxou para o balcão da Lancheria Matheus. O pau quebrava com a chegada de Brigada. Ele falava com entusiasmo, analisando a simetria da situação dramática e decompôs a cena. E eu preocupado com o corre-corre e a dispersão da passeata. Levou algum tempo para entender que a clareza da análise do Ivo Bender foi minha lição de dramaturgia.


Nada.

E assim o verão de 83 passou assim, entre convulsões, despedidas, gravações, desatenção e aniversários. O mundo cada vez mais passou a depender da bondade de estranhos.


Março, 1°, terça-feira.
  1. Tomografia.

O mês começou com uma tomografia computadorizada que levei, junto com outros exames, para avaliação do Dr. Jaderson Costa que estava assumindo o caso. Ele mudou a medicação, fez uma interpretação nova do eletroencefalograma. Um padrão de ponta-onda determinava uma alteração na medicação e no diagnóstico anterior que era de Síndrome de West. Esta tinha prognóstico, como dizem os médicos, reservado. O que significava em linguagem leiga, muito grave. Já o padrão ponta-onda oferecia uma esperança, pequena, mas sempre uma esperança, o que é um alento, mesmo quando esta se revela uma pálida expectativa de uma vida sem luz. A característica da esperança é esse caráter de azarão, de zebra, é este vôo do besouro que sempre esperamos quando o forte enfrenta o fraco. Esse espectro de possibilidades adversas muito superiores e potentes do que as favoráveis, determinam o estoicismo, que nos mantém vivos.

O uso de Clonazepan com Ácido Valpróico esbateu as convulsões e deu alento. O futuro não confirmaria aquela melhora, mas foi uma vitória temporária num mar de escombros emocionais.


Março, 18.
  1. Trenaflor.

Estreou no Teatro Renascença da peça Trenaflor. Foi o segundo trabalho do grupo Vende-se Sonhos e por isso, cheio de expectativas. Já haviam emplacado um sucesso com School´s Out e o momento era de sedimentar o teatro no movimento cultural. O grupo faria ainda um terceiro trabalho discutindo a produção de cinema no Sul: “Das Duas Uma”. Enquanto School´s Out colocava em movimento as escolhas profissionais e o período preparatório para a Universidade, Trenaflor era uma passárgadas porto-alegrense que tratava de confrontar o sonho neo-hippie de uma vida em comunidade versus a agruras da vida adulta . O teatro lotado, não consegui ingresso. Falei com o Jorjão, técnico do teatro Renascença, que abriu a porta do corredor da área administrativa. Entrei na sala de apresentação pela porta do palco. Sentado no chão assisti a uma apresentação emocionante. Marcos Breda, Cleyde Fayad, Angel Palomero e todo o elenco estavam muitos bem. Breda entraria no Bailei em 85 fez um poeta pornográfico que arrancava aplausos do público. Foi muito emocionante. Quando a peça terminou não fui no camarim falar com o pessoal. Cleyde e todo o elenco acharam que eu não tinha o gostado. Na verdade, não fora no camarim por que tinha gostado demais. Cheguei em casa e escrevi um poema para o grupo.

Eu queria ter feito a peça.



Março, 23, quarta.

  1. Açorianos.

Dia de glória. Recebi o prêmio Troféu Açorianos de Melhor Diretor e “Não Pensa Muito Que Dói” foi eleito o melhor espetáculo de 82. Haidée Porto foi apresentadora do prêmio e, muito feliz, fazia sinais para mim tentando me avisar da premiação, mas eu não entendia. A razão da sua felicidade é que, além da amizade que nos unia, o “Não Pensa” já estava programado para ser o primeiro espetáculo a se apresentar no projeto criado por ela, que faria história lançando muitos dos novos artistas do emergente teatro gaúcho. O nome do projeto era Unicena.

Superamos o magnífico espetáculo, “Reis Vagabundos”, da Maria Helena Lopes, este sim, na minha opinião, o melhor de 82. Mas pouco importava a justiça, tinha 26 anos, uma mulher, um apartamento, uma Brasília usada e um filho com uma lesão cerebral. Nada mais justo do que eu receber um prêmio injusto.


Março, 30, quarta-feira.

  1. Imposto de renda.
  2. Telefonemas.
  3. 1º de abril.

Imposto de renda.

Entreguei o Imposto de Renda. Não atingira a renda mínima que determinasse a obrigatoriedade da declaração, mas o fizera para recuperar uma pequena restituição originada de uma série de comerciais de TV cujos cachês tiveram retenção na fonte.


Telefonemas.

Telefonei para o Ivo Bender e falei com o Sérgio Silva. Não sei porque nem para quê, mas com certeza foi importante de outro modo não anotaria na agenda. Até hoje são duas pessoas que eu admiro muito. Ligaria para eles agora, mesmo que não tivesse nada para falar com eles.

1º de abril.

Além disso, este dia teve uma importância extra. Foi no dia 30 de março que começaram oficialmente os ensaios de uma peça que naquele momento tinha o título provisório de “1° de Abril”. O início dos ensaios foi à véspera do aniversário do golpe, mas eu não percebera naquele momento que nós vivíamos mergulhados numa linguagem que nos anteciparia, inventado-nos.

A idéia de 1° de Abril era um pensamento sem dono que pairava pela cidade. Uma nuvem de possibilidades rondando as mentes mais acuradas. A Marília, algum tempo depois de sair da peça me contou que outro diretor de teatro da cidade lhe convidou para fazer uma peça que acontecia em Porto Alegre no dia do golpe militar e teria o dia dos bobos como título. Marília respondeu:

- Essa peça existe, o Júlio já está ensaiando.

No dia seguinte, véspera do feriadão da Páscoa estudei Urologia e levei uma fita para o Gilberto Perin na TV Gaúcha. Era uma fita para copiar o clipe da música do Flávio Bicca Rocha, tema do “Não Pensa”. Em 2005, recebi a cópia daquele clipe. Uma obra de arqueologia, gravada nas dependências do DAD, antes das reformas, e guardava toda aquela arquitetura decadente, caótica e fascinante da escola de teatro.

Diário de Montagem de Bailei na Curva 1983 (7)


Janeiro, 27.

  1. Balanço do teatro.
  2. Visita do Flávio.
  3. Saída da Marília.


Balanço do teatro.

Janeiro estava se encerrando. O movimento teatral gaúcho se resumiu a três peças de teatro, todas de grupos novos. “Murro em Ponta de Faca”, de Augusto Boal, na Sala Álvaro Moreira, direção de Bety Fano, na qual trabalhava um ator que eu ainda não conhecia e que veio a ter um papel muito importante no Bailei: Fernando Severino. “A Mãe”, de um grupo chamado “não semo istrela mas briamo” e o “Ciclo da Inconstância”, do Euclides Dutra de Moraes, o Kydo, premiado junto comigo no I Concurso de Dramaturgia Qorpo Santo. A peça os “Reis Vagabundos” de Maria Helena Lopes fora escolhida para viajar pelo Brasil no Projeto Mambembão. De São Paulo veio uma peça dirigida pelo primeiro mímico brasileiro, Ricardo Bandeira. “Todo o Mundo Nu” e esteve em cartaz no Teatro Presidente. Não vi e não me arrisquei a ver.

Visita do Flávio.

Recebi a visita do Flávio Bicca Rocha e uma reunião com algumas pessoas da peça “Não Pensa Muito Que Dói”, obra de encerramento da faculdade de Direção Teatral. Já havíamos tido alguns ensaios esporádicos no final de 82 e Flávio foi à minha casa naquela noite de janeiro para me questionar sobre o que faríamos nesta nova peça. Na verdade, isso já era um hábito dele. Já havia feito isso no ano de 82 quando surgiu no meio da noite para saber como se desenvolveria a proposta de fazer uma crítica ao DAD através da peça “Não Pensa Muito Que Dói”. Este tipo de dúvida sempre assolou a personalidade de Flávio, sempre tão hamletiano em seu drama de ser ou não ser. Nunca me esqueço que depois da estréia do “Não Pensa Muito” no teatrinho do DAD em 82, saímos juntos para comemoram no apartamento da Marília Rossi que morava no centro, na Jerônimo de Ornelas. A apresentação tinha sido um sucesso, nunca tinha visto o público de um teatro rir tanto. Eles riram de cada piada, se reconheceram e se emocionaram de uma forma que eu não esperava. Não podia imaginar, pelas experiências vividas por mim até então, que o teatro pudesse ser uma ferramenta a produzir tal intensidade emocional. Estávamos ainda em estado de choque, elevados pelo sucesso. Foi uma evidência que teatro não precisava ser uma coisa chata. Tivemos a certeza que havia um caminho viável e eu embarcaria nele atrás deste sonho. Entramos no fusquinha do Flávio e ele disse uma das frases mais emblemáticas, que representa a ele mais do que qualquer outra que já escutei. Ele simplesmente ligou o motor e sem olhar para nada disse:

- Agora eu acredito na peça. – e ligou o motor do fusquinha.

- Agora não precisa mais – retruquei - depois da estréia qualquer um é capaz de acreditar. Tive vontade de mandá-lo a merda. Sempre pensei que um artista, um verdadeiro artista, tem que acreditar antes e justamente por isso, por esta visão da aurora antes do amanhecer é que é um artista. Contive o ímpeto e apontei uma vaga para estacionar.

O mais engraçado é que um ano depois dessa conversa estava ensaiando Bailei na Curva e os personagens Torugo e Paulo Renato desfilavam suas fragilidades num fusquinha.

Saída da Marília.

Ainda em dezembro de 82 reuni o grupo para explanar o projeto de utilização de um roteiro análogo ao do “Não Pensa Muito”, porém num universo mais amplo. Foi aí que estabeleci que a questão golpe militar versus revolução e o dia 1° de abril versus 31 de março seria o ponto chave da idéia da nova peça. Ali eu estabelecera a metáfora que geraria toda a criação do “Bailei na Curva”. Não tenho anotações de quem estava presente, talvez o Flávio, a Regina e Torquato estivessem. A Claudia e a Marília também, mas não tenho certeza. Tenho anotações de um ensaio preliminar. Foi numa academia de ginástica na Rua Rodolfo Gomes e o Torquato e a Marília improvisaram pela primeira vez a cena do carro. Eu levara a proposta de trabalhar com as nossas lembranças. Torquato criou um Chevrolet 61, com portas imensas e grandes espaços internos e junto com a Marília que improvisou a esposa, foram passar o domingo na beira do Guaíba. Era uma cena deliciosa com crianças brigando sentar na janela do carro, a mãe gritando, a farofada do domingo à beira do Guaíba. Na praia de Ipanema, areia grossa, guarda-sol, bóias de câmara de pneu, e a mãe pedindo desesperada para os filhos não nadarem lá no fundo. Com certeza foi o germe da cena sobre um fim de semana em Tramandaí da peça “Cabeça-quebra-cabeça” de 84 e da cena do carro do “Bailei na Curva” realizada meses depois.

Quando nos despedimos na esquina da Av. Getúlio Vargas com a Rodolfo Gomes, a Marília me disse que não faria a nova peça . Falou como se fosse uma coisa banal, sem muita importância. Fingi que não sentia nada e lhe dei dois beijos de despedida. Lamentei não ter insistido nem falado da importância dela, que sem ela o “Não Pensa” não seria o que foi, mas calei. Marília fora essencial no processo de criação e um conforto emocional. Ela foi minha primeira namorada na Escola de Teatro. Ela era motivo de chacota, pois num meio liberal do teatro ela se vangloriava de ser virgem. Quando começamos a namorar, todos pensavam que ela teria perdido a virgindade comigo. Não foi verdade. Eu é que perdi a minha virgindade estética com ela. Pois ela me ajudou a entrar no mundo teatro e me apaixonar por esta estranha arte de representar.

Depois de dois beijos foi embora. Como bom leonino que sou, segurei o abandono fingindo que nada acontecera. Comecei, imediatamente, a pensar em quem entraria no seu lugar.

Fevereiro, 10.

  1. Márcia.
  2. Interlúdio.

Márcia.

A solução estava em casa. Falei com a Márcia do Canto e ela entrou na peça. Casados há pouco tempo, Márcia trazia a marca do sucesso em tudo o que fazia. Fora uma das responsáveis pelo sucesso de Schools Out fazendo o aluno ridículo, onde se destacava pela caracterização. Depois, na simpática Tita dividindo a cena com o amigo surpreendido pelo pai com maconha no bolso da jaqueta e, por fim, arrancando suspiros da platéia com suas cenas sensuais mostrando toda a beleza que encantou Caetano Veloso. Uma das mulheres mais linda que já conheci, tudo que ela fazia dava certo.

Esse era o último dia de inscrições para o Prêmio Qorpo Santo e, no dia seguinte, o aniversário da Dona Virgínia, minha mãe. Um churrasco na Rainha do Mar com toda a família reunida. Discussões políticas polarizadas entre meu irmão, à direita, e meu cunhado e minha irmã, à esquerda. O muro ainda não havia caído nem a exclusão mostrava a sua violência globalizada.

Interlúdio.

Numa pequena sala na rua São Manuel, gravei o áudio do filme Interlúdio, direção de Giba Assis Brasil e Carlos Gerbase. Era um filme de curta metragem em 35 mm que fora filmado durante carnaval de 82. No elenco tinha a Márcia do Canto, Matinha Biavaschi, Lúcia Serpa, Cleide Fayad, Marília Rossi. As locações foram no Supermercado Zaffari da Fernando Machado, no tradicional trailer de cachorro quentes chamado Zé do Passaporte, no extinto Cine Coral, numa esquina da Santana e no próprio apartamento do Giba na Cabral. O filme saiu muito bem, mas o áudio ficou muito carregado de um sotaque exageradamente gaúcho. Era o início da passagem do Super 8 para o 35 mm o sistema de produção do grupo veio a se realizar plenamente na Casa de Cinema e acabou gerando vários longas metragens entre ele Verde Anos e Me Beija, filmados durante o ano.

“Interlúdio” participou do Festival de Cinema de Gramado. Não ganhou nenhum prêmio e só voltou a ser apresentado no projeto da Curtas Gaúchos na RBS TV, 18 anos depois. Pode ser visto em retrospectivas no Canal Brasil.

Diário de Montagem de Bailei na Curva 1983 (6)



Janeiro, 18.
Joguei futebol.
Não posso afirmar com certeza, mas tenho a impressão que nesta época se formou o grande e único time de futebol da Escola de Teatro. O que convenhamos dentro de uma Escola de Teatro nunca foi muito fácil juntar cinco pessoas gostassem de jogar futebol de salão. O teatro ainda não tinha o apelo de mídia que a Televisão e, em especial, as novelas conferiram à Arte Dramática. Entrava no teatro queria fazer teatro. Não quem visasse televisão, novelas e muito menos cinema. O destino era o palco. E espetáculo futebolístico não era nenhum festival de delicadezas.
Rememorando
O time era formado por vários atores como João Batista Dimmer, Lui Stassbuger, e por diretores de teatro como Cláudio Cruz, e Beto Ruas. Tinha ainda a participação de um dos gênios da cenografia: Nelsinho Magalhães. E o time se completava com Osvaldo, mais conhecido como Vavá, o folclórico porteiro.
Era ele que marcava os jogos e levava as camisetas e agitava a turma toda.
Durante o curso era freqüente a necessidade de ensaios durante as madrugadas e o Vavá era quem mantinha a Escola aberta fora do expediente. No começo dos anos 80, em meio a uma intensa crise econômica Vavá, sua mulher e seu filho foram despejados. Sem lugar para morar, mudaram-se para a Sala dos Alunos do Departamento. Uma situação totalmente irregular, mas frente a unanimidade Vavá, todos encobriam. Uma família morando no coração de uma Universidade Federal não deixava de criar situações inusitadas. Era freqüente em aulas de Expressão Corporal, que terminavam perto quase uma hora da tarde, acontecer de, em pleno relaxamento, um cheirinho de um bife ou outra fritura qualquer invadir a sala de aula. Demandava muita concentração evitar os roncos do estômago.
Em compensação, os ensaios madrugada adentro eram clandestinamente facilitados por ele. Atualmente ele deve cobrir as folgas de São Pedro na portaria do céu. Qualquer problema, em qualquer hora, é só falar com o Vavá.
Janeiro, 19.
Aniversário da morte de Elis Regina.
A notícia
Um ano antes, Pedro ainda na barriga da Márcia. Estava almoçando, a TV ligada, sala do apartamento 202 na Av. Getúlio Vargas no Menino Deus. Acho que a Márcia estava no quarto e entrou no ar a chamada de informe especial para noticiara a morte da cantora Elis Regina. O ar sumiu de dentro do apartamento. Assim como eu, o Brasil inteiro congelou com a notícia. Dois dias depois Pedro nasceu e a notícia, ainda no hospital, era que o legista, colaborador do regime de exceção, diria que a causa da morte teria sido o uso de cocaína associado ao álcool.
Os jornais falavam do primeiro ano da morte de Elis Regina. Um especial na TV Bandeirantes e outro na TV Gaúcha que eu me programei para assistir. Na Zero Hora, uma entrevista que eu anotei na minha agenda:
A vida não tem paetês. A gente inventa um brilho para ela ficar melhor. Quando eu era pequena em Porto Alegre minha família teve que escolher entre comer ou ter um piano. O brilho que eu inventei depois, então sem piano, fui cantar e fazer de conta que eu era a melhor cantora do Brasil.
A criação é resultado de processo reticular de suportar as perdas e se inventar uma saída onde não tem saída. “Vida, esta causa perdida”, dizia Antonio Abujamra e Bráulio Pedroso escreveu que a vida é “uma aposta sem ter resposta”. Quando a psicanálise entrou na minha vida descobri o pensamento agudamente renovador de Wilfred Bion. Seu último texto publicado em vida foi “Como tirar proveito de um mau negócio”. Estas afirmações ganham um efeito nas palavras de Elis Regina. Há algo que insiste em todos nós. Resistir é preciso e é imperativo criar para sobreviver.
Janeiro, 20.
Rainha do Mar
Garrincha
Fomos passar o fim de semana na Rainha do Mar. À noite, deu na TV que o Garrincha morreu.
Janeiro, 21.
Aniversário Pedro.
Fizemos a festa do primeiro aniversário na praia. Mesa posta ao ar livre, doces e bolo de aniversário, balões e a faixa desejando “Feliz Aniversário”. Quem passasse pela frente de casa imaginaria que era festa comum. Todos alegres, comendo e bebendo. Cantamos “Parabéns a Você”, piadas, gargalhadas. Só aniversariante, Pedro, não fixava o olhar e não podia assoprar a vela. Havia uma alegria desconfiada no ar.
Na madrugada assisti ao filme “Garrincha Alegria do Povo” num aparelho de doze polegadas com uma imagem cheia de chuvisco.

Diário de Montagem de Bailei na Curva 1983 (5)


Janeiro, 12.

  1. ZH segundo caderno.

O destaque de capa do Segundo Caderno de Zero Hora foi o retorno da Europa da primeira dama do estado, Dionéia Soares, esposa do então governador Jair Soares, o que reflete o tamanho da importância que a mídia dava para os dos eventos culturais da cidade. Naquele mesmo dia estava se apresentando no Bar do IAB, Nelson Coelho de Castro com o show “Um Braço Clandestino No Espaço” onde ensaiava as músicas que viriam a compor o disco “Vim Vadia” que seria lançado no inverno daquele ano.

Quarta-feira era dia da coluna Ti Fraga, do humorista Fraga que mais tarde encarnaria o Analista de Bagé do Luis Fernando Veríssimo e faria um dos mais belos comentários sobre a peça que ainda não tinha nome e que viria a ser Bailei na Curva.

Todos nós éramos iniciantes.

O segundo caderno era tradicionalmente feito por jovens jornalistas, recém saídos da Faculdade que, assim que adquiriam certo status migravam para setores de maior prestígios. O resultado disso é que cada artista que entrava na redação tinha que se apresentar e falar sobre a sua trajetória de novo e de novo e de novo. Como se a cultura feita no Rio Grande do Sul estivesse sempre no marco zero.

Nestes anos 80, Juarez Fonseca, um jornalista símbolo do reconhecimento dos artistas que produziam em Porto Alegre, estabeleceu um jornalismo galmouroso, no qual destacava as individualidades e enaltecia as estrelas. Contribuiu muito para o esboço de um “starsystem”. Porém, como novas e desastrosas editorias, inverter-se o eixo e a política cultural do jornal se submeteu a um processo maior, valorizando eventos que não tínhamos acesso e solapou o movimento artístico dos anos 80. Tínhamos um jornal que falava mais do mundo do que do Bom Fim.

A velha questão entre a aldeia e o mundo e que santo de casa não faz milagre. Mas algum santo em algum lugar do mundo fazia milagre.

Não aqui.


Janeiro, 14.

  1. Aula de Medicina Legal.

Conteúdos necessários para constarem no laudo: preâmbulo, quesitos, histórico, descrição, conclusão e por fim resposta aos quesitos.


Janeiro, 13.

  1. Anestesiologia.
  2. Cinema.
  3. Aula

O médico contratado nos obrigou a anotar na agenda para que não fizemos besteira, a cor dos cilindros. Oxigênio, tubo preto, gás carbônico, cilindro alumínio, carbogênio (oxigênio + gás carbônico a 5%) = preto + alumínio. Ar comprimido: cilindro azul segurança (isto é, azul claro); N2O azul marinho. Nunca usar graxa nem óleo em O2, pois teremos risco de fogo.

Cinema

Ainda neste janeiro assisti duas vezes ao filme A Guerra do Fogo, de Jean Jaques Annaud no Cine Imperial, contando a pré-história do homem na sua conquista do fogo. Três homens das cavernas, numa época em que a linguagem engatinhava e eles se comunicavam com urros, saem em busca do segredo do fogo. No contato com grupos estrangeiros, do mesmo modo que Prometeu, roubam o fogo dos deuses e criam uma nova cultura. Durante a segunda exibição que assisti, faltou luz e o Imperial ficou as escuras. Instintivamente dei um urro de protesto. O cinema todo caiu na gargalhada. Uma tênue sensação nos unia apesar dos séculos.


Janeiro, 16.

  1. Pensamento positivo.

Marília Pêra estréia no Rio de Janeiro a peça “Adorável Júlia”. Zero Hora traz fragmento de uma entrevista na qual ela afirma que no Brasil é muito difícil fazer teatro.

Refletindo

Se para Marília Pêra que já era a Marília Pêra, o que dizer sobre o que acontecia em Porto Alegre? Em 1983 tínhamos um mercado restrito, poucos e honrosos sucessos, valorização precária da arte teatral e quase nenhuma divulgação dos espetáculos ditos “locais”. Para evidenciar tais proposições bastaria folhear os cadernos de cultura da época. Um público de no máximo duas mil pessoas, sempre as mesmas, a maioria de conhecidos ou aspirantes ao palco. Seria até divertido entrar no teatro e conhecer todos os espectadores.

Se não fosse trágico.

Diário de Montagem de Bailei na Curva 1983 (4)



Janeiro, 8, sábado.
  1. Reunião de pais.
Reunião de pais.
Na Escola fundada pelos pais de crianças com lesão cerebral, conheci muita gente, muitos pais e filhos que sofreram muito. Lembro do Fabinho, mais velho do que o Pedro. A lesão dele fora originada por erro metabólico. Alguns alimentos que deveriam ser decomposto no organismo, por falha do metabolismo, não possuíam vias adequadas. Isso produzia um acumulo de metabólitos no cérebro produzindo a lesão. No caso do Fabinho, a causa foi descoberta e ele teve uma evolução boa para as circunstâncias. Perdi contato com ele e com sua família. Ele era ruivinho e com um olhar esperto que contrastava com as restrições que seu delicado corpo apresentava.Luíza era uma amiguinha do Pedro. As atendentes diziam que eles eram namorados. Ela era espástica, ou seja, todos os músculos ficam exageradamente tensos. Era morena, bonita. Morreu com 15 anos. Seu pai foi amigo da minha família. Era um cara muito amoroso e cuidava da filha com tal dedicação que me deixava sempre com sentimento de culpa por eu não me sentir tão bom e dedicado quanto ele. Um dia pai de Luíza encheu de tudo. Separou-se, arranjou várias namoradas. Morreu num acidente de carro. Viajava num final de tarde, sem óculos, que ele se recusava a usar, e entrou embaixo de um caminhão que transportava carros. Por ironia do destino este tipo de veículo é conhecido como “cegonha”.
Havia três viúvas chorando ao lado de seu esquife.
Segunda-feira, 10 janeiro.
  1. Pagamentos.
  1. CRT.
  1. Qorpo Santo.
  1. Ciclo de cinema político no Bristol.
  1. Brandão.
PagamentosPaguei a CRT no Banrisul e fiz diversos pagamentos. Depois entreguei o material para o prêmio Qorpo Santo de dramaturgia.
Anotei os pagamentos a serem efetuados no dia 12:Clair, 20.000,00 cruzeiros, Brandão, 30.000,00 e Abrão, 24.000,00.
Qorpo Santo Foi a segunda versão do Prêmio Qorpo Santo. Eu participara da primeira, em 1980, ganhando o segundo prêmio de dramaturgia para crianças. Desta vez, ao contrário da primeira na qual a premiação era a simples publicação do texto, a quantia de Cr$ 300.000,00 era destinada para o primeiro lugar e Cr$ 200.000,00 para o segundo. Incluía ainda um Auxílio Montagem de Cr$ 500.000,00. Entreguei os textos na APATEDERGS, Associação dos Produtores de Teatro do Rio Grande do Sul, sede na Av. Borges de Medeiros, 835 – Altos do Viaduto. Na entidade se ensaiava novo modelo de produção que ficou conhecido como “Livre Associação”. Era uma maneira de evitar os pesados encargos empresarias e criava um passo intermediário entre o trabalho com vínculo empregatístico que era contraproducente e o profissionalismo emergente.
Depois, fui no Ciclo do Bristol. Estava passando uma retrospectiva do cinema político do cineasta Costa Gravas.
Não lembro qual o filme e não tenho a mínima idéia do que aquela quantia de dinheiro do prêmio representava.Brandão Paulo C. Brandão era o médico que trabalhava com o Pedro na área da estimulação precoce. O mais estranho (e familiar) foi que com o pai dele, Dr. Paulo Brandão, que fiz o meu primeiro tratamento psicoterápico. Não lembro do rosto do Brandão pai e talvez por isso, em seu lugar colei sobre a sua imagem, a do dramaturgo italiano Luigi Pirandello. Dr. Brandão uma vez me falou do escritor italiano. Como a sessão era a última do dia, às vezes, tomávamos o elevador e saímos juntos do prédio. Encontrar o terapeuta fora do enquadre da sessão tem sido ao longo dos anos motivos de muitas controvérsias. O fato é que é difícil ficar frente a frente com uma pessoa com a qual você conta todas as suas fantasias e todos os seus impulsos mais primitivos e às vezes sórdidos. Naquela noite, ele estava com uma sobrecasaca escura, uma manta de lã. Paramos na banca e eu comprei uma publicação de contos onde o destaque era uma história do Pirandello. Dr. Brandão olhou para a revista, tomou-a nas mãos, suspirou fundo, grave e interessado, comprovando a importância do momento. Balançou a cabeça e falou: “Pirandello”. Franziu a boca e arregalou os olhos. Talvez tenha feito um “hum”. Aquele foi o certificado que coisas que passavam na minha mente poderia ser importantes e que talvez ali uma idéia geminal do teatro ser inseminada no meu cérebro. Dr. Paulo César Brandão, o filho, que cuidava do meu filho, foi a pessoa mais importante naqueles momentos em que se evidenciou que o Pedro tinha um problema grave. Digo isso porque como se pode imaginar há um imenso processo de negação. Toda a família em volta percebe, os vizinhos percebem, as avós percebem. Até mesmo os pais percebem, mas ninguém quer ver. Não se pode subestimar a capacidade humana de negação. Paulo César Brandão foi carinhoso e afirmativo. Confirmou para mim e para a Márcia que havia efetivamente um problema. Pedro tinha uma lesão. Desabamos em choro. Ele nos acompanhou silencioso, o olhar dele nos acalmava, e começou a brincar com o Pedro. Falava como se inventasse um código, como se estivéssemos na origem da humanidade e a linguagem estivesse sendo ali criada, o dedo de Deus tocando o Moisés, era a Capela Cistina re-inventada, Paulo C Brandão era nosso Michelangelo e ali presenciávamos o milagre de uma invenção. Uma linguagem primitiva quase sem códigos, feita de olhares e sentimentos. Ele ensinou a ver nos pequenos detalhes o que estava sendo dito, esboços de movimentos que representavam, fragmentos de uma cadeia comunicativa que, de forma precária, ainda assim era o substituto de discurso. E nos ensinou a paciência de não esperar evolução maior daquela que o próprio Pedro indicasse. Não nos vendeu nenhuma ilusão. Certa vez, num período de desespero, fomos a uma sessão de umbanda. Entrei num grande salão perfumado e cheio de fumaça. A música era bela e ritualística desde o início envolvendo num clima onírico. Os médiuns distribuindo passes, e se ouvia a todo instante a figura do cavalo, um médium que se comunicava com a alma sofredora acolhendo seu sofrimento e expressando a dor. Dentre todos, escolhi um preto velho, gordo, com um olhar generoso e gestos lentos de bondade. Ele incorporou na minha frente. Falou com palavras fragmentadas, suprimindo dos finais, pulando palavras como se fossem mensagens entrecortadas. Falei algumas coisas que estavam acontecendo. Ele estava em transe e eu muito emocionado. Chorava. Naquela hora, ele poderia tirar qualquer coisa de mim, eu estava exposto e a mercê. Ao invés disso, ele falou com uma voz suave, que aquele era o destino do Pedro. Nada poderia ser feito. Eu fui embora e desisti da umbanda naquela noite. Eu queria uma esperança, imaginava que num mundo onde predominava o pensamento mágico eu teria algum consolo. Mas não. Sai da sala e nunca mais voltei a aquele centro. Continuei não acreditando, mas passei a respeitar essas pessoas que se oferecem para trazer mensagens do outro mundo. Havia naquele preto velho uma dignidade que me comoveu.

sábado, 8 de março de 2008

Diário de Montagem de Bailei na Curva 1983 (3)

Janeiro, 5.

  1. Bom dia 1983.

Show no Araújo Vianna reuniu Geraldo Flack e Grupo, Giba Giba, Toneco, Talo Pereyra, e o Canto Livre. As boas vindas para o ano começavam com Geraldo Flack que tinha Augustinho Lick na guitarra. Ele junto com Nei Lisboa, lançariam disco que seria um marco da música gaúcha, na época chamada MPG – música popular gaúcha. O LP “Para Viajar no Cosmos Não Precisa Gasolina” seria, naquele inverno uma mercadoria rara e valiosa a percorrer a cidade de mão e mão subvertendo as falhas de distribuição.

Elipse: essa tal de música gaúcha.

A designação de MPG denotava o sentimento de exclusão da arte gaúcha. Ainda bem que não vingou. Foi logo deixada de lado. Sempre acreditei que a música, teatro ou cinema quando designado de “gaúcho” deveriam apenas servir de nomeação geográfica. Nunca uma estética particular, pois, qualquer arte feita no Rio Grande do Sul ou Rio Grande do Norte teria que ser antes de tudo brasileira.

Na iluminação do Bom Dia 1983 estava o mestre João Acir. Foi meu professor de iluminação e trabalho com todos os grandes nomes do teatro brasileiro. Através de uma história que ele me contou, elaborei a diferença entre método e talento. Contou que estava começando a aprender a arte de iluminação teatral e trabalhava no Theatro São Pedro. Algum tempo antes, ele assistira uma montagem de luz do Adolfo Celi um dos importantes diretores italianos importados pelo TBC. Sua iluminação era cartesiana: um refletor 45 graus de frente, um refletor de cima, conhecido como pino, um contra. Esperava algo semelhante quando Ziembinsky entrou no teatro, gripado, enrolado num grosso echarpe de lã. Mau humorado e com desleixo gritava para os técnicos:

- Mais para cá, , mais para lá. Agora coloca um refletor ali. Pronto, deu.

Zimba, com passou a se conhecido, inventor do teatro brasileiro com a montagem de “Vestido de Noiva” de Nelson Rodrigues, não esperou para ver o resultado. Saiu batendo a porta.

O jovem iluminador achou estranho aquilo tudo e foi embora decepcionado.

Naquela noite João Acir assistiu das melhores iluminações de sua vida.


Mais uma elipse temporal e um pedaço da análise.

Muitos anos antes do longa-metragem “Deu Pra Ti Anos 70” meu pai chegou em casa com um pacote de baixo do braço. Colocou em cima da mesa. Era uma câmera de Super 8. Comprara nos EUA durante uma viagem de negócios. A compra envolvia uma complicada história de falta de domínio da língua inglesa, com a já tradicional desconfiança de gringo. Meu pai e minha mãe tinham certeza que o nipo-americano que lhes vendeu a máquina numa pequena loja de eletrônicos em Nova Iorque havia lhes enganado. O suposto truque envolvia uma troca de pacotes. Vendia-se um produto e entregava-se outro. A verificação da fraude se dava horas depois no quarto do Hotel, onde se percebia que a desejada filmadora fora substituída por outra de menor qualidade. Meus pais voltaram a loja e simplesmente destrocaram a filmadora, sem nota fiscal, sem comprovantes de vendas e saíram a rua. Poderiam ter sido detidos por roubo. Meu pai contava estava história de uma forma jocosa, uma bravata que beirava a luxúria. Pois foi nesta filmadora que eu realizei a minha primeira obra. Foi a filmagem de uma flor. Fiz um zoom de aproximação, lento, aproximando em close, desfocando o fundo e salientando as cores e o contraste. Corte. Nova tomada, câmera de ponta cabeça. Curto e corte. Vista lateral e corte. De pé e corte. Novamente de cabeça para baixo e corte. Repetiram-se vários takes rápidos, estanques e intensos. Depois um zoom de afastamento. Lento, lentíssimo e derradeiro. Fim da cena. O momento de captação foi uma brincadeira de criança. Dias depois, filme revelado, a visão da pequena cena foi um choque emocional para mim e para todos na sala. Deslumbrou. Anos depois esta cena veio a minha mente e percebi que foi a primeira vez que senti que poderia fazer alguma coisa de criativo. Tinha vivido a experiência de desenhar com a tesoura quando criança. Minha mãe tratava de empresariar o espetáculo. Não havia aniversário, festa ou velório no qual eu não era convidado para recortar em púbico meus objetos. Mas estes eram brinquedos meus, sem objetivo de partilha, era criações para meu próprio deleite. Com o tempo comecei a me recusar a faze-los em público.

Porém, esta cena da filmadora, vista sob a distância do tempo, forma um delicado paradigma estético. A beleza colorida da flor que chama a atenção. A aproximação voraz, intensa, desejante. O encontro turbulento com o objeto, ponta cabeça, reviravoltas, perspectivas. Por fim um afastamento sábio, algo que se processou e me transforma. Percorro o mesmo caminho, agora de volta, mas não sou mais o mesmo. Tive assim a minha primeira iluminação estética. Anos depois, já em análise, senti uma estranha sensação nas mãos. Formigavam e me ocorreu uma espécie de poema no qual via minhas mãos suficientemente fortes para criar muros, paredes, portas e poemas. Por um instante me senti um operário da arte, um artista.

Foi também numa das primeiras sessões de análise que um sonho se revelou. Via o relógio da casa da minha Vó. O pêndulo dentro de uma escultura de madeira. Lá em cima um pombo e a morada do cuco que sistematicamente marcava as horas cheias com um trinar agudo e histérico. Contei este sonho em análise. Sonhos de início de tratamento, assim como as primeiras impressões, os as primeiras palavras, tem um tom antecipatório e profético. O relógio marcava o alvo da minha análise, apreensão da temporalidade e conseqüente aquisição da eterna companheira. A morte. Essa companheira que em psicanálise não é só a morte, mas a castração, é o contato com nosso limite e contrato com o nosso desejo. Essa noção de temporalidade determina o fruir vital. A interpretação do Abrão foi maravilhosa. Ele não se precipitou e interpretações milagrosas, mas usou a sua intuição e perguntou o nome da minha Vó. Virginia, mesmo nome da minha mãe. Durante o período de redação da peça, Dona Virginia se tornou a primeira fala de Bailei na Curva. Gabriela entra em cena e diz:

- Ó, Dona Virgínia como vai?

Inicio e fim.


Janeiro, 7.

  1. Exame.
  2. Lembrar & Comprar.
  3. Carteira de motorista.

Junto a esta anotação estava um lembrete para pegar os exames médicos do Pedro, comprar um Tape Deck e entregar o Edital de ocupação de teatro.

Carteira de motorista? Não sei o porquê desta anotação.

Talvez pensasse em dirigir melhor a minha vida.

sexta-feira, 7 de março de 2008

Dispositivo Cênico: Diário de Montagem de Bailei na Curva 1983 (2)

Dispositivo Cênico: Diário de Montagem de Bailei na Curva 1983 (2)

Diário de Montagem de Bailei na Curva 1983 (2)

Janeiro, dia 3

  1. Volta para Porto Alegre.
  2. Sessão com Abrão Slavutzky.
  3. Passar na Censura Federal. (apanhar certificado)
  4. Clair.

Volta para Porto Alegre, sessão de análise.

Voltei para Porto Alegre e à tarde, primeiro horário, entrei no consultório do psicanalista Abrão Slavutzky. Começara a análise em 79 e até aquele momento da minha vida era marcado pelo ser ou não ser entre o teatro e a medicina.

Uma questão hamletiana.

Primeira elipse, um rápido panorama do teatro

O teatro mostrava inviável como profissão e o retorno para a faculdade de medicina se tornara imperativo. No início da década de sessenta uma diáspora artística gaúcha determinou uma debandada dos artistas de teatro para o mercado profissional no Rio de Janeiro e em São Paulo, resultado da absoluta falta de estrutura profissional. E isso perdurava. Um mercado fechado, produções pobres e uma colonização cultural interna na qual o movimento teatral baseava-se quase exclusivamente em remontagens de sucessos ocorridas no eixo. Somava a isso um público que, num paradoxo narcísico, se valorizava desprezando os seus. Este conjunto colocava nosso teatro como uma filial do centro do país.

Em 77 abandonara temporariamente o curso de Medicina para me dedicar ao teatro e já final 79, num esforço desesperado, fizera três peças para a Campanha das Kombi, num conhecido projeto de popularização do teatro. O governo pagava um subsídio e assim barateava os ingressos, melhorando o fluxo de público. Naquele final do ano de 79 eu dirigira o texto “Palhaçadas” de João Siqueira, peça infantil em temporada no Teatro de Arena. Pedrinho Santos e Marco Sório no elenco. Ainda no período da tarde eu entrava em cena em “A Comunidade do Arco Íris”, de Caio Fernando Abreu, com direção da Suzana Saldanha, e a noite interpretava um soldado romano em “O Julgamento de Lúculus”, Bertold Brecht, com direção do L.E. Crescente, nos porões do MARGS. Mesmo assim para sobreviver tive que vender quatro boxes de estacionamento que haviam sido doados por meu pai, e dava aula de teatro numa pré-escola chamada Balão Vermelho. A bancarrota iminente, o nascimento do Pedro e a falência das produções me obrigaram a um retorno, um tanto melancólico, para a Faculdade de Medicina. Para completar o quadro, rodara, por dois décimos, na disciplina de Medicina Interna I, pré-requisito essencial para a continuidade do curso. Restaram algumas matérias esparsas deixando o semestre um tanto ocioso.

Passar na Censura Federal. (apanhar certificado)

Mais tarde naquele mesmo dia, passei na Censura Federal para apanhar o certificado de censura, pois sem o autorização do Serviço a peça não poderia entrar em cartaz e era urgente a resolver a situação da peça “Não Pensa Muito Que Dói”. Em dezembro de 82 todas as apresentações foram sem a tal liberação e por isso clandestinas. Aconteceram no teatrinho do DAD – Departamento de Arte Dramática, Salgado Filho 330 - e tinham um caráter curricular para um público interno formado de alunos e professores. No entanto, resolvemos que seriam abertas ao público em geral, e por isso exigiam a liberação da autarquia. Por um capricho adolescente, simplesmente me recusara a passar pelo ensaio da censura, colocando a peça em cartaz a revelia. No segundo dia daquela curta temporada, um funcionário público, agente do Serviço de Censura, apareceu com uma intimação. Fora “convidado” a prestar esclarecimento para o Chefe do Departamento e Censura Federal do Rio Grande do Sul.

No dia seguinte, meu coração batia descompassado quando entrei na sala. O censor me examinou de cima a baixo. Falava comigo, mas eu logo percebe que seu pensamento estava em outro lugar. De repente, seus olhos brilharam – ele encontrou o que procurava em sua viagem interna -, e falou com uma bondosa ameaçadora:

- Inclusive é ruim para ti desrespeitar a censura, apresentando sem autorização por que já tens outra peça que já passou pelos nossos arquivos...

Ele se referia a “O Reino do Sol”, uma peça infantil que escrevera no ano de 78 e que tivera sua montagem totalmente interditada pelo Serviço de Censura de Porto Alegre. As avaliações, anteriormente, eram feitas em Brasília pela famigerada Solange Maria Teixeira Hernandes. Este procedimento demorava vários meses e era necessário passar por processo de descentralização a fim de agilizar os despachos. Ao mesmo tempo era um ensaio para uma possível abertura e o resultado seria o vislumbre de uma distensão política e da abertura que se realizaria nos anos seguintes. “O Reino do Sol” foi uma das primeiras peças a serem examinadas na sede de Porto Alegre, e apesar de ser uma peça infantil era recheada de alusões políticas, partidárias, pedagógica, democrática e interativa. Uma irreverência absoluta tanto em nível de texto quanto de interpretação. Marcou meu encontro explosivo e intenso com as personalidades de dois grandes artistas que, assim como eu, buscavam seu lugar ao sol: Camilo de Lélis e Roberto Oliveira.

“O Reino do Sol” era um texto que falava de um reino despótico a ser derrotado por uma eleição. O espetáculo tinha seu ponto alto na participação do público, antecipando à onda interativa que invadiu os teatros nos anos noventa. Como a eleição e a democracia eram temas da peça, a platéia era convidada a exercer seu direito de votar para presidente. Anárquica e subversiva a peça foi censurada. Mesmo assim, algumas apresentações foram feitas e o resultado era quase que invariavelmente era de uma comoção libertária que culminava com a eleição de alguém do público, geralmente o aluno, geralmente o mais popular. Como apresentávamos para escolas num período onde a repressão política ainda mostrava seu autoritarismo, os alunos demonstravam sua rebeldia pela insubordinação. A interdição do texto e da montagem foi um grande constrangimento para o Departamento de Censura de Polícia Federal do Rio Grande do Sul, pois já em um dos seus primeiros exercícios de autonomia, via-se obrigado a uma atitude drástica e antipopular. Ora, censurar uma peça, ainda por cima, infantil!

O censor, um funcionário público de carreira, sorriu enquanto me ameaçava. Eu nunca esqueci o seu olhar. Era torturado olho no olho com torturador.

Anos depois da abertura soube que este funcionário morrera numa explosão de um botijão de gás.

Mas quem estava a ponto de explodir era eu.

Clair.

A anotação seguinte, Clair, referia-se à fisioterapeuta que atendia o Pedro. Nascido no dia 21 de janeiro de 1982, dois dias depois da morte de Elis Regina. O trágico que se anunciava para o Brasil com a morte da nossa maior cantora, tomava, no meu pequeno mundo, um caráter catastrófico.

A lesão cerebral nascera junto com Pedro.

Com três meses não sustentava o pescoço. Com seis não sentava e com nove meses não só não engatinhara, como iniciara o período mais crítico do seu primeiro ano de vida marcado por convulsões intensas e freqüentes. Espasmos tônico-clônicos que a princípio pareciam movimentos inofensivos, mas que aos poucos viraram um fantasma que nos tirou o sono e transformou cada movimento de Pedro num sobressalto. Percebia-se que ele demorava em fixar o olhar e que um grande esforço era necessário para que ele acompanhasse o movimento das pessoas. Nestes esforços Pedro mobilizava uma parte do seu cérebro danificada e daquele foco de insubordinação neuronal começaram a produção de estímulos desconexos. A cada um deles correspondia uma convulsão. E eram muitas. Passariam desapercebidas a um leigo, um esgar aqui, outro movimento estranho ali, seguido de um silêncio corporal e um olhar assustado. O que era uma suspeita se transformou numa triste certeza. Aqueles gestos involuntários não só tratava-se de convulsões, como tinham um efeito aterrador. Agravavam paulatinamente o quadro. Pedro arregalava os olhos com se perguntasse o estava acontecendo e o que significava aquela turbulência interna na qual ele estava imerso? Ele nunca pôde saber, mas nós sabíamos que cada daquelas convulsões determinava um agravamento do quadro. E elas foram aumentando. Vinte, trinta, quarenta. Chegaram a oitenta crises por dia. Orientados pelos neurologistas, anotávamos as crises num caderno, minuto a minuto, com o intuito de estabelecer um padrão. O estabelecido foi que ele apresentava convulsões o tempo todo. Nem mais de manhã, nem menos à tarde e nem menos ainda à noite. As convulsões eram constantes, pertinazes e eficientes. Atacavam neurônio por neurônio de modo sistemático e repetitivo. A medicação anti-convulsiva se mostrava impotente para conter o ataque. Cada convulsão era uma lâmina que cravada no cérebro de todos nós.

A Clair era uma mulher generosa. Formada no cotidiano, a prática foi a sua escola. Fora durante muitos anos atendente de uma Clínica de Fisioterapia e ali aprendera tudo que precisava. Estávamos de olho nela há muito tempo. E quando ela sai da Clínica nos a contratamos.

Imagino que se de fato existirem pessoas superiores para tratar de pessoas especiais, então Clair seria uma delas.

quinta-feira, 6 de março de 2008

Diário de Montagem de Bailei na Curva 1983 (1)


1983.

Janeiro, 1, sábado.

  1. Reveillon na praia.
  2. Família.
  3. Foguetes

Eu, Márcia e Pedro, meu filho, passamos o Reveillon de 83 em Rainha do Mar. A casa dos meus pais na esquina da Rua 3 com a Avenida Principal. Uma construção que vi florescer por obra do meu então cunhado Jorge Moojen. Recém formando em Engenharia testava seus conhecimentos inicias. Fez o projeto e gerenciou a construção. E nesta casa usufrui verão após verão da adolescência até a vida adulta. A casa da praia fora ao longo dos anos uma espécie de sistema de medidas do crescimento familiar. Tínhamos uma parede onde se media o quanto cada um havia crescido naquele ano. Mas o essencial era a medida do crescimento emocional e o exercício das novas experiências. O fato de re-encontrar uma série de pessoas que não se encontravam regularmente durante o ano, dava a medida exata das transformações que a vida impunha. Rainha do Mar se tornara uma espécie de zona franca da nossa imaginação e servia de palco para as primeiras experiências. Equivalente a um cerimonial de passagem, na beira da praia aconteceu o primeiro namoro, o primeiro beijo, a primeira transa, a primeira briga, a primeira desilusão. Rainha do Mas, altar indígena das nossas mudanças ritmadas pelas ondas e pela temporalidade sincrônica de nossos corpos.

Enquanto isso, o presidente João Batista Figueiredo falava de um novo Brasil para 1983. A ditadura militar iniciada em 64 aproximava-se do seu ocaso abraçada numa Abertura Política lenta, gradual e restrita. Prometia-se um retorno as liberdades democráticas e ao estado de direito. A inflação era de 99,7% ao ano e a paz tinha voltado ao bairro da Azenha porque os bombeiros finalmente prenderam um macaco louco que andava assombrando as casa e foi carinhosamente chamado de Quico.

Jantar em família foi no pátio interno da casa, sobre o grama, que meu pai cortava semanalmente, e sob as estrelas de uma agradável noite de verão. A mesa posta a céu aberto, brisa suave e a temperatura amena e aconchegante. A noite dava indícios de um ano promissor.

Meu pai amava e ama seus vinhos. Uma alegria vê-lo abrir uma garrafa. Ele vibrava, entrava em êxtases, seus comentários eram grandiosos como se sofresse de um indefectível entusiasmo. Ele abriu uma garrafa de branco argentino muito perfumado e completou com um chileno, cabernet encorpado da Concha y Toro. Para ele, se o mundo pudesse ser salvo, o seria através do vinho. Nisso concordávamos, eu também sonhava com uma sociedade de bacantes, mais justa, embalada por festas dionisíacas.

Bernardino, meu pai, como um corifeu comandava a noite sentado a cabeceira da mesa e Virgínia, minha mãe, a sua direita. Fernando e Salete, meus irmãos, completavam o coro, e espreguiçavam-se em cadeiras de balanço. Para os gregos o vinho carregava o Entusiasmo que é a presença dos deuses e o Êxtase quando o homem é tomado pela alegria divina. Enquanto aguarda as manifestações dos deuses, eu me encontrava num anti-climax, envolto num silêncio apaziguador. Foi um momento de contemplação e por um instante deixei que a noite pousasse sobre meus pensamentos. Um momento de mansidão, a paz assustadora da calmaria. Os deuses escondem as turbulências em mares tranqüilos.

Antes da meia-noite fomos para a beira da praia. Foi um dos primeiros anos de foguetório em Rainha. Num quiosque abandonado sob a areia assisti o nascer do ano. Refiz meus projetos para o ano: uma peça nova que eu não tinha idéia do que seria; passar em todas as cadeiras da faculdade; saúde e amor. Coisas banais que todo o mundo pensa. Não tinha idéia do que aconteceria dali para frente, mas, de súbito, sem motivo aparente, uma emoção desmesurada me invadiu. Um cone emocional se abriu entre um fogo de artifício e o espocar de um foguete, um lapso temporal e eu fui tragado pelo buraco negro que culminou com o choro convulso lavando meu rosto com lágrimas de incerteza.