sábado, 26 de abril de 2008

Diário de Montagem de Bailei na Curva (16)

Junho, 25.

  1. TV.

Assistimos a entrega do Prêmio do Festival Universitário pela RBS TV. A música começava a decolar e alinhavava uma trajetória própria. Elaine Gaissler apresentou a música no projeto Unimúsica e foi um sucesso. Uma gravação com arranjo muito popular e na voz de Elaine popularizou a canção. Mesmo sem disco na praça foi a mais pedida de muitas rádios e era sempre usada na divulgação do espetáculo. A peça carregava a música e a música alavancava a peça. Um casamento perfeito. Ainda no final daquele ano foi gravado um show musical onde tocaram os melhores músicos do Estado. Flávio, ainda um desconhecido, fechava o programa que foi apresentado na programação de virada do ano seguinte. Haviam belas tomadas áreas onde desfilavam as ruas de um porto não muito alegre. Completaria o circulo da música num clipe feito pelo Gilberto Perin para o programa Fantástico. Horizontes se abriam para bailar pelo Brasil.


Junho, 29, quarta-feira, dia de São Pedro.
  1. Iniciamos os ensaios diários do “Bailei na Curva”.

Com o avançar do processo surge a necessidade de uma freqüência maior de trabalho. Os espaços dentro da Faculdade estão cada vez menores. O Flávio ficou de conseguir um lugar na ABIPEX. Era um escritório desativado de oficiais do Exercito emprestado graças a tráfico de influência do Ubirajara, pai do Flávio. Marcamos a reunião. Entro numa sala de pouco mais de trinta metros quadrados. Mínima para ensaios. Única vantagem é que tem uma sala contígua com máquina de escrever e escritório e, na sala principal, duas portas em cada extremo da parede o que pode simular as saídas. O resto é péssimo. Úmida, pouca luz e sufocante. Reclamo das condições e, com isso, Flávio se irrita. Alguém impede que a briga tome proporções maiores. Tenho que planejar de forma específica toda a concepção das cenas.

Apesar destes problemas, as férias da Faculdade começaram e eu tinha ainda mais tempo livre. Aqui inicia a grande virada do processo de ensaios. Sabia que teria trinta dias para terminar a peça. E passamos a trabalhar dois de ensaios. O terceiro turno eu usava para escrever a peça. Já tinha feito vários esboços, mas sempre com vergonha de mostrar. Já tinha escrito as famílias. Imperativo era aprofundar cada vertente social. Uma família representando a ideologia militar. (Experiências do Flávio). Outra de empresário, ricos de direita e apoiadora do golpe (minha família). A família de intelectuais de esquerda (da Márcia e da Claudia). A família de classe mais baixa, ligada ao operariado e simpatizante do movimento trabalhista e a classe média bem média representada por alguém ligado ao funcionalismo ou a pedagogia de base (Hermes e Regina). Tinha na minha mente estas cinco vertentes. Não dá para dizer se foi uma coincidência ou apenas uma amostragem estatística que calhou o fato de que cada um dos integrantes do grupo mais perto ou mais longe tinha, de um modo ou de outro, uma ligação com estas vertentes. O fato era que estávamos frente a uma indedibilidade.

Imaginei praticáveis, maiores, menores, altos e baixos que corresponderiam as classes sociais e definiriam os espaços cênicos ao mesmo tempo que viabilizariam ensaiar naquele espaço diminuto da ABIPEX.

Um novo eletro e finalmente as convulsões do Pedro estavam sob controle. A mudança da medicação fez efeito. Agora é esperar que ele evolua. Levei Pedro para passear na Praça Israel. Com um olho brinco com ele, com outro observo outras crianças. A luminosidade de Porto Alegre nesta época do ano chega a constranger o meu olhar.

Julho, 14.

  1. Grupo da Caixa Econômica
  2. Ensaios Bailei.
  3. Hermes falta vários ensaios em seqüência

Ensaios com o pessoal da Caixa Econômica nas quintas e sextas. Em agosto teremos ensaios nos sábados.

Ensaio do Bailei nos outros dias: segunda, terça, quarta, sábado e domingo.

Hermes faltou o ensaio. Fico muito irritado. Os atores me olham. A frustração quando se planeja um ensaio e alguém falta é muito grande. Nestas horas se percebe o amadorismo do nosso teatro. Os resultados são muito além das condições para que eles ocorram. Hermes não é de faltar ensaio, pelo contrário, é um ator muito compenetrado e obstinado. Porém, vem faltando. Tenho na minha cabeça entre aquelas crianças que 64 brincavam na rua, um deles tem que morrer. Ainda não havia decidido qual, quando a seqüência de faltas do Hermes aconteceu. Ele deve ser o cara que vai para a guerrilha, ele será nosso mártir, o herói da peça se apresenta através da falta.

Pedro desapareceu.

Quando que o nome une o personagem ao meu filho, levo um choque. Eu decidi a morte e ela se apresenta sob a forma de Pedro. Duplo impacto.

Julho, 21.

  1. Não dei curso.
  2. Preciso de um tempo para pensar.

Dormi mal pensando no Pedro morto. As imagens se mesclam, Pedro-Hermes e Pedro Conte, unidos pelo acaso. Insônia. Falta de ar, tenho uma crise se asma. Passo a noite lendo o Diário de Che Guevara. Seus últimos momentos na La Higuera, onde perdeu as botinas, dispnéico, faminto e cercado. Bichos caçados de noite e de dia. Ele também tinha asma.

Leio um conto do Júlio César Monteiro Martins. O clima dos contos dele é uma referência para a peça. Num dos ensaios levo para o elenco e leio. J.C. Monteiro Martins é um contista da nova geração e tem a mesma idade que eu. Não está, por isso, isento dos atos da ditadura, embora, assim com eu, não tenha sido protagonista de ações heróicas. E é justamente isso que me interessa. Uma vida comum que viu um Brasil ser encarcerado e não percebeu. Vai saber vendo a peça. O teatro purgando esse grande furúnculo da cegueira coletiva, a omissão. Última cena: após a leitura do texto do J.C.Monteiro Martins entra a música do Flávio Bicca em play-back. Atores começam a entrar em cena como se estivessem na Rua da Praia ou na Redenção, atravessam a cena. Um grupo faz teatro na rua contando uma história do Brasil.

Passei o resto da noite acossado pelas exigências do pensamento.

  1. Elipse que a insônia não viu.

A noite mal dormida, encobriu um pedaço significativo da cosntrução do Bailei. Mal sabia que estava frente a cena mais emblemática da peça. Naquele momento era apenas um irritação de um lado e excesso de trabalho de outro. Tinhamos um hiato narrativo e a cena que só realizaria no mês de setembro quando, na mesma noite, improvisamos a cena quando Pedro sai de casa e cai na clandestinidade e o encontro da Ana, a namoradinha de infância de Pedro, com Dona Elvira, mãe de Pedro. Faltando em seqüência, Hermes Mancilha, estava se transformando no personagem principal da peça. Mas naquela hora ninguém sabia, nem podia imaginar. Um luminusidade obscura nos conduzia.

Nosso mérito é que seguiamos a escuridão.

Um comentário:

Thiago rodrigo disse...

Porque parou Júlio?