sábado, 17 de maio de 2008

Diário de Montagem de Bailei na Curva 1983 (18)

Como não achei nenhuma foto coloquei esta em que estamos festejando a minha formatura do DAD, festejo ocorrido no antológico Bar do IAB.

Julho, 24.

  1. Meu aniversário e aniversário de casamento.
  2. Festejamos.

Um ano antes no Petropole Tênis Clube casara com a Márcia do Canto. Éramos jovens e cheios de saúde e o manto negro da tragédia já armava seus fios invisíveis, mas nós não sabíamos. A festa foi dentro de uma perspectiva informal. Não houve casamento no religioso apesar das comedidas insistências de meus pais. Eles, no entanto, me respeitaram. O aceite se efetivou. Pagaram a festa. Muitos amigos presentes, uma cerimônia eclética. Simpatizantes da direita e da esquerda na mesma mesa, o que comprova a minha tese que se houver comida, música e bebida a disputa ideológica cede lugar para a solidariedade e a confraternização. Pelo menos, foi o que pensei quando vi sentados na mesa uma multiplicidade de representantes de partidos políticos e concepções de vida tão opostos.

Nunca entendi porque resolvi casar no dia do meu aniversário.

Durante a análise, este dia sempre trazia material inusitado e intenso. No dia que eu nasci, minha mãe quase morreu. Uma hemorragia difícil de estancar fez com que ela entrasse em choque devido à perda de sangue. Ela pensou que iria morrer e começou a cantar uma canção saudosa e melancólica. As enfermeiras comovidas saiam da sala para chorar. Eu do meu lado, recém nascido, paradoxalmente não chorei. Fiquei numa mesa de atendimento ao lado de minha mãe, num abandono secular, desde a hora que nasci, às sete horas da manhã de um domingo de 1955, até o final da manhã, quando uma minha tia compadecida com meu desamparo, me deu o primeiro banho passando das onze horas daquela manhã dominical. Surpreende-me até hoje o fato de não chorar, nem ao mesno dormir como costuma acontecer com bebês nestes momentos iniciais da vida. Imagino que, com o rudimento mental que tinha a minha disposição, devo ter inventado alguma coisa para me manter vivo durante àquele lapso subjetivamente milenar de tempo. Gosto de me ver como se estivesse jogando com quase pensamentos para dar conta das fantásticas impressões sensoriais e com a brutal realidade que me cercava e que esqueci. Por isso, até hoje, quando me acossam momentos de vazio assustador, eu logo trato de preencher com mind games, pois guardo a fantasia que foi naquele abandono primordial que resolvi ser artista e criar algo para que a realidade não me sugasse para o buraco negro absoluto. Talvez seja este o nosso desafio.

A vida não existe, tem que ser inventada.

Na noite seguinte comunicamos aos nossos pais que eles seriam avós. Fingiram surpresa, mas tudo indicava que eles já estivessem percebido. Antes de dormir, Márcia sentiu pela primeira vez os movimentos do Pedro dentro da barriga. Na época, ela descreveu como uma batida de asas de borboleta.

A noite veio com uma pequena confraternização no apartamento da Getúlio. As duas famílias estavam presentes. As de sangre e o grupo de teatro.

Julho, 25.

  1. Teatro Presidente.

Reunião com o Jofre Miguel. O cara era todo poderoso. Administrava o Teatro Presidente, um espaço grande com mil lugares. Tentei falar com ele para conseguir uma pauta para a peça. Sabia que era uma ousadia, mas não tinha outra saída. Jofre Miguel remarcou várias vezes as reuniões até desistirmos de pleitear as datas.

Alguns anos depois numa conversa com o Gabriel, esse sim dono do teatro, falei que eu tentara datas para estrear o Bailei no Presidente. O velho Gabriel, que era tido como um ranzinza, balançou a cabeça e soltou um palavrão:

- Porra, por que não falaram comigo?

Eu quase disse que tentei, mas sabia que era apenas uma desculpa pelas inúmeras vezes que não fomos recebidos. O Teatro Presidente não foi o único teatro a recusar pauta para a estréia do “Bailei na Curva”. No Teatro do Museu do Trabalho fiquei horas tentando convencer o administrador a ceder um pauta. Ele não levou fé. Queria uma peça de projeção para marcar o teatro.

E ainda teríamos ainda um episódio com o Teatro Renascença que só fiquei sabendo muito tempo depois.



Julho, 26.

  1. Reunião com o Geraldo Lopes da Opus as 14:30 horas.
  2. Praia de Belas 2310.

Lúcia Serpa e eu fomos para a reunião com o Geraldo Lopes da Opus Promoções. Estacionamos o carro quase na esquina, muito perto do número 2310 da Praia de Belas. A Opus já era uma produtora de renome, trazia grandes nomes do cenário musical e teatro e fazia produção local dos grandes empresário brasileiros como o Marcos Lázaro e Poladian. O pulo do gato que transformou o Geraldo Lopes num produtor de prestígio nacional foi a vinda da Mercedes Sosa para Porto Alegre. Um evento inesquecível para a cultura e para a democracia. Foi a primeira vez que a cantora esteve no Brasil e a apresentação no Gigantinho lotado esteve ameaçada por grupos de ultra direita que ameaçavam explodir o ginásio de esportes. Mesmo sob explosões de efeito moral o show aconteceu e assim iniciou a trajetória da Produtora. Eu já conhecia o Geraldo. Quando atuei numa peça chamada “O Julgamento de Luculus”, e Bertold Brecht com direção de Luiz Eduardo Crescente apresentada numa sala de MARGS, o Geraldo nos deu apoio extra-oficial, pois, na época ele namorava uma das atrizes da peça. Ele conseguiu umas arquibancadas e com elas praticamente criou uma sala de espetáculo além de um sistema de divulgação inédito na produção local. Sabia do que ele tinha feito para a peça, mas não havia falado com ele até então.

Entramos na sala de espera. Não havia com esconder que estávamos constrangidos. Artistas não gostam de pedir, pelo menos na época era assim. Mas a audácia foi grande, bem maior do que a timidez e o orgulho. Este conflito resultou numa cena divertida. Entrei e vi aquele homem pequeno, atarracado, rodeado de telefones e com uma carinha simpática, sempre com um sorriso discreto entre lábios e um olhar atento. Ele silenciou dando assim a palavra para mim. Na hora de falar não saiu palavra alguma da minha boca. O ar sumiu da sala. A recuperação veio aos trancos. Comecei atrapalhado, me desculpando de tomar seu tempo. Disse que ele era muito ocupado, que tratava de produções nacionais e que nosso produto era pequeno. Além da timidez e de entrar num terreno profissional que eu não dominava, ainda percorria meu pensamento a dúvida se tínhamos de fato um produto para a Opus comercializara, pois a peça estava longe de ficar pronta. Tropecei nas palavras até que achei um adjetivo para qualificar o trabalho que me acalmou:

- Não é grande coisa, mas tem o essencial.

Essencial, que palavra salvadora. Quando esta palavra saiu dos meus lábios, o ar voltou e eu respirei pela primeira vez. Lúcia no meu lado só olhava enquanto o Geraldo escutava. Fiz uma pausa e o Geraldo falou que, ao contrário do que o pessoal pensa, ele apoiava os trabalhos locais. E que, como se fosse a coisa mais natural do mundo, disse que aceitava a produção. Eu ouvi-o falar, mas não escutei. Já recomposta e com as palvras de volta a minha boca, tomei coragem e insisti, de forma cada vez mais enfática que o teatro local tinha qualidade, que as produtoras tinham que se engajar neste processo. Que produtoras como a dele tinham uma responsabilidade social. Levantei a voz. Eu estava entusiasmado com o meu discurso, revertendo uma situação negativa. Lá no fundo de mim achava que éramos uma causa perdida e isso me deu o alento dos desenganados. Feliz comigo mesmo, parei para ver o efeito da minha argumentação. Percebi que a Lúcia sorria, e, mais ainda o Geraldo olhava para mim, tentando entender onde eu queria chegar. O ápice do meu discurso foi quando, olhei no olho do Geral e, fiz outra pausa e perguntei:

- Tu aceita?

- Sim, já disse que aceito.

Não conseguia acreditar:

- Mas tu aceita mesmo?

- Sim, já falei.

Sem entender o que ele falava:

- Mas aceita produzir a peça que eu estou dirigindo, essa peça mesmo?

- Sim.

Finalmente, caindo a máscara, quase deprimido:

- Mas nós não somos ninguém.

Ele debochado completou:

- Mas vocês têm o essencial, não tem?

Aí foi a minha vez de falar todos os sims que eu não tinha escutado e vieram em série com ondas do mar:

- Sim, sim, sim.

Lúcia e eu saímos dali e fomos para o meu apartamento na Getúlio Vargas. Contamos para a Márcia que fizemos a proposta e o Geraldo aceitou na hora. Temos que festejar Opus Promoções vai produzir Bailei na Curva. Abri um licor de chocolate na falta de algo melhor. Bebemos.

Num clima estilo Casablanca podia se dizer que a aquele encontro com o Geraldo era o começo de uma grande amizade.

Nenhum comentário: