domingo, 5 de abril de 2009

16 DE OUTUBRO DE 1983

Outubro 16.


  1. Carlos Urbim assiste a peça e escreve uma poesia.

  2. Nascimento de um poeta.

    Asssitir a peça começa a produzir efeitos emocionais impressionates. Carlos Urbin foi um destes eventos que marcaram a história de Bailei na Curva. Ela assistiu à peça num sábado a noite. Na saída o encontrei emocionado. Ele estava agitado, falava sem parar. Dizia que a geração dele deveria estar dando o seu depoimento junto com a minha geração que se apresentava no palco. Eu o conhecia pouco, ele era muito amigo do Geraldo Lopes, o que eu conhecia era o jornalista. O que não sabia que ali estava nascendo o poeta.
    Naquela noite, madrugada insone em Viamão, Urbin escreveu uma poesia primeira que tive noticias, antes do Menino Daltônico. O interlocutor imaginário do poema era o Geraldo Lopes, mas a referência maior era para o grupo. Geraldo estava muito emocionado. Na segunda Geraldo me chamou para uma reunião e leu a poesia. Tempo todo com um nó na garganta e lágrimas nos olhos.

Naquele tempo
Também não tive aula.
Como os outros – e o teu tchê
O meu curso em Livramento não funcionou.
Dez anos antes, em agosto
Foi assim de dias sem aulas.
Entre fotos de Luz Del Fuego e Carmen Miranda.
Na capa de O Cruzeiro
A máscara em gesso de Getúlio,
Olhos fechados e uma longa carta.
Mas aí é um pouco antes
De outra história:
Tu ainda não tinha nascido
Eu ainda não ia ao colégio
A Elis Regina ainda não era vesga.
Acho que cantava nas festinhas do IAPI.
Tu me diz, no entanto
A História nunca é outra
Sempre a mesma
O tempo não altera os fatos.
Nós, tchê, é que mudamos
Ou encontramos um jeito de dizer
De expressar o nosso testemunho,
Antes e depois das curvas.
Naquele ano não fomos à aula
As rádios falaram bastante.
Naquele ano
A Elis desceu no Rio,
Um Rio já sem nenhum espaço
Pro Darcy Ribeiro ribeirar
Pintava por aí – aqui e lá
As curvas daqueles que bailaram.
Primeiro de abril,
Quem não gostou botou açúcar
E comeu da mesma panela
Onde a vaca amarela cagou.
Tu diz também, tchê
Pra que eu sempre me lembre bem
Que não há muito o que fazer
Quando o nego tem pela frente
A necessidade de pisar e conhecer
Os paralelepípedos da Rua da Praia.
Mesmo que fosse o momento
De compreender e reproduzir
O gesto e canto
Dos que arrancaram paralelepípedos
Da França Quartier Latin Saint-Michel.
Naquele ano,
Outra curva, novo baile
Na Reitoria
Na Filosofia
Num quarto de pensão.
Apedrejaram Gerd Borheim
E, como o Banco trancou as portas,
Os gritos do pessoal encurralado nas Borges
Não me chegaram até a Carteira de Câmbio
Primeiro andar, Rua Sete, 1968.
Naquele ano, a dor pintou
Na voz de Elis.
Um vento cais, um vento a mais
E eu sem spleeping bag
E sem estrada para fazer auto-stop.
Quer dizer, nem sonhei na travessia.
Naquele ano,
Por falar em sonho e pé na estrada,
Cada Beatle, cada andarilho
Passou a andar sozinho.
Solitária, a legião procurava
Buda, a Cordilheira e Castañeda.
Um sonho curtido nas mesas do Alaska
Sempre os bares e as curvas do Bonfim
E nas mesas da redação do jornal.
Nessas mesas não faltava
O Pasquim – ensaio de uma nova linguagem,
Irreverência sarro semanal
Leila Diniz em todas as mulheres.
Leila na mão, solta no Cine Marrocos
De pulgas e falta de luz.
Naquele ano,
Cada pedra da Rua da Praia
Correspondia a uma dúvida
A todas as angustias encontradas
Nas curvas da vida.
Foi preciso bailar, pois é!
Naquele ano
Ao som de Dom e Ravel
Pelas praias do País ensolaradas
Começava a superprodução
Rede nacional de fazer televisão
Com merchandising e Ibope.
Brasil, fiquei – façamos
Porque aqui existe amor.
Fomos todos para a frente, em corrente
Marcamos homem a homem
Driblamos
Futebol e estatísticas.
Deus foi brasileiro
A Europa acreditou e se curvou
Mais uma vez.
Vivemos a única notícia permitida:
O Milagre.
A Transamazônica é a reta mais longa
Entre dois pontos. Sem curvas,
Carros dopados de gasolina azul
Zunem pela Estrada de Santos
Pelos delírios da BR-3.
O gol mil é das criancinhas pobres
Dom Helder tem parte com o diabo encarnado
Nordeste é uma asa branca em Londres
A Elis e o Caetano e o Gil
Cantam em inglês. O Chico em italiano.
E o exílio é muito longe
E as cartas de Paris e Santiago do Chile
Não chegam.
De ordem superior,
Não se publicam cartas
Que abalam a imagem do País no exterior.
De ordem,
Nem as cartas nem o index dos proscritos
Nem a exigência dos seqüestradores.
Assim como o exílio distante
Ninguém segura o futuro e o progresso
Quando a ordem e a paz social
Estão presentes com mão férrea.
Tudo sob controle, nada mais a comentar.
Naquele ano
Cada paralelepípedo da Rua da Praia
Foi contemporâneo do choro
Contido, enrustido abafado.
Perdoa Vladimir Herzog
Mas os dias eram assim.
Cada curva de Porto Alegre
Cada história de amor
Teve o gosto amargo do medo
O gosto vazio da impotência
Toda a História
Daqueles anos
É puro medo.
Mas a Elis, Porta-estandarte
- Presta atenção tchê!
Vem cantando a antevisão
De um bêbado com chapéu coco,
Sob a lua dona de bordel.
Desses anos, tchê
Tu sabe o que eu sei.
Ou saca o lance melhor do que eu.
Anos 70, já deu pra ti?
Essa tua moçada, década
De sombras e alçapões clandestinos
Me lembra agora
Que apesar de tudo, vivemos
Ternuras
Encontros
Desencontros
Descobertas.
Mesmo que o brilho no olho,
Como todos os brilhos, fossem condenados.
Tu descobriu, tchê
E agora veio me contar,
O início e o fim que
Vira e mexe
Lá vai ele – além das curvas.
E agora, que eu sei
De ouvir cantar
De ver vocês dançarem
Quero estar junto, tchê.
Abraçado ao irmão mais novo,
Em ti restauro a minha esperança.
Recupero a minha utopia
Pra falar manso com meu filho
Sobre os anos que vão passar.
A Elis – me levaram ela embora
Num sol azul, o trem na cabeça.
A Leila virou estilhaços tropicais
E a Rua da Praia tem calçadão
Sem paralelepípedos.
Brasília ainda é a mesma,
O medo quase igual.
Mas olha tchê
Já traçamos juntos algumas curvas.
A tua canção
Me descreve, me emociona, me motiva.
Como tu, cara
Eu não quero me perder por aí.
Pode crer, tchê
Nos oitenta
A gente vai se pechar
Se encontrar
Se beijar


Carlos Urbim



A poesia foi editada na edição da LPM junto com o texto da peça Bailei na Curva. Não há dúvidas que ali nasceu o poeta.

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